Skip to content

Entrevista Gabriela Lotta

O primeiro survey sobre a situação dos profissionais de saúde durante a pandemia da Covid-19 foi lançado em maio de 2020. O que motivou a criação deste survey naquela época?

Há muitos anos nós temos nos dedicado a estudar o que chamamos de profissionais da linha de frente – ou burocratas de nível de rua – dos serviços públicos brasileiros. Temos estudos sobre profissionais da educação, assistência, segurança, meio ambiente, etc. Mas a área que eu mais estudei desde minha graduação foi a da saúde. Assim que a pandemia começou, percebemos que os que seriam mais diretamente afetados eram estes profissionais que estudamos, por dois motivos. O primeiro é porque a natureza do trabalho da linha de frente é o encontro face-a-face. E uma pandemia que exige distanciamento físico claramente afetaria a capacidade de prestação de serviços destes trabalhadores. O segundo motivo é porque alguns profissionais virariam os protagonistas para enfrentar a pandemia e suas consequências. E o caso dos profissionais de saúde é o mais evidente neste sentido, embora os da assistência e da segurança também sejam centrais. Com tudo isso, decidimos que tínhamos que olhar para como a pandemia estava afetando estes profissionais, considerando que eles são nosso objeto de estudo e ganharam uma centralidade única neste momento. Isso tudo começou logo em março. E decidimos que naquele momento tínhamos não apenas um papel importante enquanto acadêmicos para construir ciência sobre aquele momento, mas acima de tudo queríamos poder contribuir, da forma que podemos, com a melhoria do trabalho deles e de sua situação. Assim, decidimos fazer tudo muito rápido, para dar visibilidade para este fenômeno. Em meados de abril já tínhamos a survey na rua, com o relatório lançado em maio. E importante mencionar que decidimos fazer todo o trabalho já pensando em sua ampla divulgação para governos e para a imprensa, de forma que pudéssemos contribuir com o debate nacional. 

Em dezembro de 2020 os dados do survey foram analisados a partir de uma perspectiva de gênero e raça. O que motivou essa análise?

Originalmente, nossa equipe de pesquisa não trabalhava com questões de gênero e raça de forma central. Embora fossem temas que sempre aparecessem nas pesquisas, nunca demos centralidade a eles. No entanto, desde meados do ano passado começamos a nos envolver mais com estes temas com a equipe da Fiocruz e da LSE, por meio do projeto internacional “Gender and Covid-19”. Isso começou a nos inspirar a olhar para as dimensões de gênero e raça. Mas, para além disso, como fomos a campo, as questões de gênero e raça se impuseram nas análises. Ficou muito evidente que, embora a pandemia afete a todos e todas, ela afeta de maneira diferente as diversas raças e gêneros. As mulheres, de forma geral, assim como homens e mulheres negros estão muito mais afetadas pela pandemia em todas as dimensões que analisamos. Recebem menos recursos, menos treinamento, menos testagem, menos apoio etc. Considerando a realidade que se impôs para nós, decidimos abraçar a questão e olhar para ela de frente a partir da segunda rodada da pesquisa. E na terceira começamos a fazer a pesquisa em parceria com a equipe da Fiocruz, o que qualificou muito mais nossa capacidade de análise destas questões.

Como foi a recepção pública desses dados? 

Foram muito fortes, mas proporcionais às evidências. Os dados não deixam dúvidas das desigualdades reproduzidas ou aumentadas pela pandemia. Parece que tudo ficou muito escancarado. E por isso mesmo os dados têm tido muita repercussão na mídia e em grupos especializados nas questões de gênero e raça.

Como foi a recepção dos profissionais de saúde em relação ao survey? Como eles tem se apropriado desses dados?

Desde a 1ª rodada, temos tentado fazer a pesquisa em amplo diálogo com organizações que representam os profissionais de saúde, como CONACS (dos ACS e ACE) e Cofen (profissionais de enfermagem). Assim, nossos dados acabam sendo amplamente debatidos também entre eles. Soubemos por exemplo que nossos relatórios serviram para subsidiar algumas medidas judiciais de representantes de classe pedindo apoio na pandemia. Também sabemos que os relatórios estão sendo usados em secretarias municipais e estaduais, ajudando a melhorar a gestão. Por fim, recentemente nossos dados foram usados para um pedido cautelar junto à Comissão Interamericana de Direitos Humanos pedindo proteção aos profissionais de saúde.

Como foi a recepção política? Como políticos brasileiros tem se apropriado desses dados?

Como mencionei, o relatório tem rodado em secretarias de governo, tem sido usado em processos judiciais e legislativos, e até com o ministério da saúde tivemos uma conversa com base nos dados. Mais recentemente, os dados foram citados por 3 diferentes senadores na CPI da pandemia. Ou seja, os dados têm servido para contribuir com o debate nacional sobre as políticas de enfrentamento à pandemia. Além disso, tivemos uma ampla circulação na mídia. Já foram mais de 250 reportagens nacionais e internacionais usando estes dados.

TwitterWhatsAppFacebookEmail
TwitterWhatsAppFacebookEmail